quarta-feira, 14 de agosto de 2013

A paternidade líquida

Pollyana Gama
Vereadora, Educadora e mestranda
em Desenvolvimento Humano

Não é a primeira vez que recorro a Bauman ao tentar compreender situações cotidianas. E nem será a última. Zygmunt Bauman, sociólogo polonês contemporâneo, é um dos pensadores mais respeitados na atualidade e, particularmente, o considero um senhor muito simpático. Por vezes imagino como deve ser uma de suas aulas ou uma simples conversa dessas que temos por costume caracterizar como “de pai para filho” e, no caso, de “professor para aluno ou de mestre para discípulo”.

Enquanto isso não acontece, o jeito que disponho para estar por perto é ora ler seus escritos, ora assisti-lo via Youtube ou entrevistas pelo programa “Café Filosófico”, da TV Cultura, que na semana passada nos ofereceu novamente a oportunidade. Mas e o que tudo isso tem a ver com o título do nosso artigo? Pois bem, vamos ao ponto.

Nesse último fim de semana tivemos o domingo dedicado aos pais e, assim como no mês de maio temos um domingo dedicado às mães, fiquei pensativa a respeito, pois a família “Doriana” - aquela do comercial onde pai, mãe e filhos iniciam o dia sorridentes, felizes, tomando um farto café da manhã, - não tem sido real para muitos de nós.

A respeito basta atentarmos para registros anuais que mostram um número crescente de divórcios - em dezembro de 2012, o Jornal “O Vale” divulgou que enquanto no Brasil o número de divórcios cresceu 45,6%, em nossa região o crescimento foi de 47,31% - revelando parte do que Bauman, o sociólogo simpático que citei acima, delineou ao escrever “Modernidade Líquida: a liquidez nas relações”.

Na medida em que na sociedade atual os avanços se dão em vários sentidos, Bauman atenta que esses ocorrem em detrimento da solidez necessária para estabelecimento, por exemplo, de compromissos dado a fluidez com que ocorrem. Feito líquido, esses avanços não apresentam uma forma concreta e acabam moldando-se aos recipientes existentes, movimentando-se de tal maneira que se torna difícil contê-los.

E em meio a esse mundo líquido moderno, famílias se desfazem e se refazem. O modelo “Doriana” continua sendo um sonho para uns e desespero para outros que não despertaram para a máxima de que não é o modelo que faz acontecer a felicidade, “a família” e sim a relação que cada um estabelece consigo mesmo e com o outro.

A situação a que chegamos exige solidariedade, amorosidade de uns com os outros e com todos os membros de famílias “feitas, desfeitas e refeitas” e menos egoísmo, individualismo. E já que passamos apenas dois dias da comemoração do “Dia dos Pais”, por que não aproveitar o momento para pensarmos a respeito? Sinto que para ser pai, não basta apenas ser o genitor. É muito mais que isso.


Ser pai supera os fatores biológicos, consanguíneos. É necessário ter presença, dedicação, comprometimento, convivência afetuosa, na dosagem certa para o desenvolvimento integral dos filhos, garantindo-lhes ao menos “asas fortes” para que voem com a segurança essencial e saibam, queiram voltar sempre que desejarem. Do contrário, com base nas informações aqui compartilhadas, a paternidade se diluirá, tornando-se líquida e assumindo formas muitas vezes indesejáveis, e até mesmo comprometendo algo precioso: a VIDA.

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