quinta-feira, 25 de julho de 2013

Evitar tragédias é dever de todos

Mary Lorena Gurevich*
                 
Boates e casas noturnas sem alvará e estrutura adequada para evasões em emergência; construção irregular de casas em áreas de risco, com a repetição anual de deslizamentos e vítimas na época das chuvas; prédios que desabam; elevadores que despencam; barcos que afundam... Até quando o Brasil conviverá resignado com o fato consumado de tragédias, sem que se adotem medidas preventivas eficazes? É preciso mudar essa cultura de negligência com a segurança da sociedade e a vida humana.
         Tal dever não é apenas do Estado, mas de todos, em especial aqueles que são responsáveis pela gestão de organizações e estruturas nas quais as pessoas moram, trabalham, divertem-se, reúnem-se e utilizam para sua mobilidade. Nesse contexto, é de extrema importância atender às normas de segurança, conservação e manutenção dos edifícios, nos quais a grande maioria da população das grandes cidades mora ou trabalha.
É preciso ter consciência de que administrar um condomínio, uma imensa responsabilidade, exige atenção permanente com vários itens a serem inspecionados. Desde a simples troca de lâmpadas queimadas, até alguns preceitos essenciais para se evitar problemas e riscos: prevenção e proteção contra incêndios; cuidado com as marquises; atenção constante com a estrutura da edificação; manutenção periódica dos elevadores; verificação permanente da existência de vazamentos e infiltrações; e dedetização anual contra insetos, inclusive o cupim, cuja proliferação pode comprometer até mesmo o concreto.
No tocante à prevenção e proteção contra incêndio, é importante manter em dia os extintores, criar, treinar e reciclar sempre uma brigada apta a enfrentar essas situações. É recomendável, ainda, solicitar uma vistoria ao Corpo de Bombeiros sempre que modificações e reformas forem realizadas. Nesses casos, devem ser analisados o sistema hidráulico, iluminação, saídas de emergências, estruturas de proteção e a mobilidade, caso a reforma tenha alterado entras e saídas de pedestres e de automóveis.
As marquises dos prédios também devem ser inspecionadas regularmente. A manutenção e a conservação das fachadas devem ser sempre orientadas por um engenheiro. É necessário observar a legislação de cada município com relação à periodicidade e o órgão da prefeitura ao qual o laudo estrutural deve ser entregue.
Ainda com relação à estrutura do edifício há algo absolutamente prioritário: nenhuma reforma de andar, sala comercial ou apartamento residencial, bem como em garagens e áreas comuns, deve ser feita sem a orientação e autorização de um engenheiro, a partir de análise feita na planta estrutural da obra. Alterações em paredes e colunas feitas à revelia desse procedimento podem provocar grandes problemas, inclusive desabamentos, como já tem ocorrido.
Prevenção e cuidado permanente constituem compromisso muito sério de quem é responsável pela manutenção de edificações nas quais as pessoas vivem e trabalham. Isso é fundamental, pois é inútil lamentar ante a ocorrência de tragédias que poderiam ser evitadas.

*Mary Lorena Gurevich, advogada, é síndica do Condomínio Cetenco Plaza Torre Norte

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Futebol, política o papa

Pollyana Gama
Vereadora, Educadora e mestranda
em Desenvolvimento Humano

Futebol, política e religião não se misturam. Será mesmo? A realidade dos últimos acontecimentos contesta esta afirmação. No momento em que vivenciamos manifestações populares de motivos diversos, seja na busca por melhores serviços públicos, por uma política decente ou para torcer pela Seleção Brasileira durante a Copa das Confederações e até mesmo para receber o querido Papa Francisco, não podemos nos esquecer de boa parte da fonte desses recursos, comum a todos os acontecimentos: os cofres públicos.

Para ter uma ideia, o Governo Federal divulgou na semana passada a última previsão de gastos para a Copa do Mundo de 2014 na ordem de R$ 28,1 bilhões. Este valor corresponde a quase 1/3 dos R$ 99,8 bilhões destinados à Saúde ou dos R$ 81,1 bilhões do orçamento da Educação. Quanto aos investimentos públicos dirigidos à vinda do Sumo Pontífice, o jornal O Globo publicou valores em torno de R$ 120 milhões, obviamente, bem mais tímidos, contudo de origem semelhante. Para cada centavo, a justificativa dos gestores é de que ambos os eventos aquecem a economia local, e no caso da Copa, tem-se a “oportunidade histórica para o desenvolvimento do país”, nas palavras do secretário executivo do Ministério do Esporte, Luís Fernandes.

Acredito que você, leitor, esteja pensando neste momento o que leva um gestor público a se expressar dessa maneira. Até porque, penso eu, que o desenvolvimento de um país não pode ser condicionado por uma “oportunidade” que veio a se confirmar em 2006, após 506 anos do seu descobrimento, quando o Brasil foi escolhido pela Fifa para sediar o maior evento futebolístico mundial. Desenvolvimento é uma necessidade para viver e se conviver dignamente, e a maior oportunidade da qual dispomos é a vida que exige ação e reação de todos.

Ação como a de jovens do mundo todo que clamam “por espaço”, pelo primeiro emprego e que desencadeou de certa forma em uma reação imediata do Papa Francisco ao assumir o pontificado. O Santo Padre externa sua preocupação no sentido de alertar os governantes para discussão de políticas superadoras desse desafio imposto à juventude. Parte significativa desse seu alerta pôde ser conferida em seu primeiro discurso ao nosso povo quando enfatizou que “a nossa geração se demonstrará à altura da promessa contida em cada jovem quando souber abrir-lhe espaço; isso significa tutelar as condições materiais e imateriais para o seu pleno desenvolvimento; oferecer a ele fundamentos sólidos, sobre os quais construir a vida; garantir-lhe segurança e educação para que se torne aquilo que ele pode ser; transmitir-lhe valores duradouros pelos quais a vida mereça ser vivida, assegurar-lhe um horizonte transcendente que responda à sede de felicidade autentica, suscitando nele a criatividade do bem; entregar-lhe a herança de um mundo que corresponda à medida da vida humana; despertar nele as melhores potencialidades para que seja sujeito do próprio amanhã e corresponsável do destino de todos.Com essas atitudes recebemos hoje o futuro”.

As palavras do Papa nos chamam à responsabilidade, pois, independentemente do papel que desempenhamos – torcedor ou jogador de futebol; cidadão ou agente político; fiel ou líder religioso –, fazemos parte de um mesmo mundo. Por incrível que isso possa parecer, suas palavras lembraram-me também as do jornalista Juca Kfouri ao afirmar “ser reacionário o discurso dos que não acreditam se misturar futebol e política”. A isso acrescentaria também a religião, pois todos esses segmentos configuram instituições humanas. Que bom que o Papa não é um reacionário. Pensar e reverberar que futebol, política e religião não se misturam é desconsiderar possibilidades de diálogo em prol de um coletivo.


A sociedade brasileira busca seu porto seguro e isso, por si só, deveria configurar-se oportuno para o desenvolvimento de ações planejadas por parte dos governantes. Eventos acontecem e a vida, as pessoas e suas necessidades tem acontecido muito antes. Agregar eventos sazonais a um plano de desenvolvimento contínuo, desde que já se tenha garantido padrões semelhantes na prestação dos serviços públicos essenciais, é equalizar satisfação com qualidade de vida.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Derrota militar, vitória política!

        Gilson Alberto Novaes*

O feriado que comemoramos em 9 de julho precisa ser mais divulgado aos nossos jovens e adolescentes e à geração futura, pois é uma data muito importante. Passou a ser considerado feriado civil em no Estado de São Paulo em 5 de março de 1997, por meio da Lei Estadual nº 9.497. Portanto, é há pouco tempo que paramos o trabalho e refletimos sobre a data, que marca a deflagração da Revolução Constitucionalista de 1932, considerada, para nós paulistas, nossa data magna, a exemplo da “Guerra dos Farrapos” para os gaúchos.

A Revolução Constitucionalista de 1932 ou “Guerra Paulista” como também é chamada, foi um movimento armado que aconteceu naquele ano, entre os meses de julho e outubro e que tinha por objetivo a derrubada do Governo Provisório de Getúlio Vargas e a promulgação de uma nova Constituição para nosso país. Foi uma resposta à Revolução de 1930, que acabou com a autonomia que os Estados gozavam até então, na vigência da Constituição de 1891, impediu a posse do ex-presidente (atualmente denomina-se governador) do Estado de São Paulo Júlio Prestes na presidência da República e derrubou do poder o presidente da República Washington Luiz. Este foi o ponto final da chamada República Velha, o que tornou inválida a Constituição de 1891 e instaurou o Governo Provisório, chefiado por Getúlio Vargas, candidato derrotado nas eleições presidenciais de 1930.

Houve uma repercussão popular muito grande, um sentimento patriótico que brotou no coração dos paulistas e que levou àquele movimento. No dia 23 de maio daquele ano, durante um ato político no centro de São Paulo, a polícia enfrenta os manifestantes, ocasionando a morte de quatro estudantes. Em homenagem a eles, o movimento passa a se chamar MMDC, iniciais de Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, os jovens mortos. No dia 9 de julho começou a rebelião armada, com um grande número de civis ingressando no corpo de infantaria e sendo transferido para as três grandes frentes de batalha, no limite entre Minas Gerais, Paraná e Vale do Paraíba.

Milhares de pessoas doaram pratarias, joias e alianças para ajudar financeiramente o movimento. Fardas, auxílio de todas as formas, alimento e voluntários ajudavam nas mais diferentes tarefas. Os comandantes militares sabiam que as forças federais eram superiores e contavam com a união e ajuda de outros Estados. São Paulo foi cercado pelas tropas legalistas. Após ajustes, envolvendo indulto aos rebeldes e facilidades para o exílio dos líderes civis e militares do movimento, os paulistas anunciam sua rendição em 3 de outubro.

A Revolução Constitucionalista de 1932 foi a primeira grande revolta contra o governo de Getúlio Vargas e o último grande conflito armado ocorrido no Brasil. Sem dúvida, configurou-se como o maior conflito militar da história brasileira no século XX.

O seu término marcou o início do processo de democratização em nosso país. A derrota militar transformou-se em vitória política. Em 3 de maio do ano seguinte, 1933, realizaram-se eleições para a Assembleia Nacional Constituinte, quando a mulher votou pela primeira vez no Brasil! Ao ver seu governo fragilizado e em risco, Getúlio Vargas deu início ao processo de reconstitucionalização do Brasil, levando à promulgação, em 1934, de uma nova Carta Magna.

A data de 9 de julho não é tão comemorada no interior do Estado como é na capital, onde a destruição e as mortes provocadas pela rebelião são ainda recordadas. A lembrança também é mais forte nas regiões de divisa do Estado, onde se travaram os combates, especialmente no Vale do Paraíba. Foram 87 dias de combates – de 9 de julho a 3 de outubro, resultando num saldo oficial de 934 mortos, embora estimativas oficiosas reportem até 2.200 vítimas fatais.

No Parque do Ibirapuera em São Paulo existe um obelisco construído em homenagem aos heróis da Revolução Paulista. O Exército Constitucionalista ainda existe e é presidido por veteranos de 1932, cuja sociedade preserva a memória, documentos e relíquias daquela época. Não podemos esquecer nossa história!

*Gilson Alberto Novaes é professor na Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie – “campus” Campinas, onde é Gestor Acadêmico Especial.)

sábado, 20 de julho de 2013

O LADO BOM DO CONFLITO

Eduardo Shinyashiki

Onde não há conflito? Que relação amorosa, profissional, de mãe e filho e até com nós mesmos sobrevive sem a discordância de alguns pontos? Esquecemos que o conflito é parte natural e inevitável das relações humanas.

Mesmo nos melhores lugares de trabalho ou nas mais harmoniosas famílias podemos encontrar situações de conflito, pois é exatamente nos momentos de confronto entre diferentes mentalidades, valores, maneira de ser e ver o mundo, que ele aparece como elemento fisiológico.

A palavra, do latim confligere, significa “bater junto”, “estar em desavença”, “golpear”, “atacar”, que evoca, obviamente, o conceito negativo de guerra, luta, disputa, agressividade, confronto e violência. Mas de um ponto de vista diferente, o conflito é a outra face da paz e ele nos exige aprender a mantê-la, não só quando tudo vai bem e está em harmonia.

O confronto pode ser definido de duas maneiras: como negativo, quando cada envolvido tenta impor a sua opinião sem ouvir a outra parte ou quando o comportamento de um interfere nas necessidades do outro. No entanto, ele pode ter efeitos positivos, tudo depende das estratégias utilizadas para resolvê-lo, ou seja, se as ideias são colocadas em discussão expondo outras formas de ver, ser e agir e se tudo isso é feito de um jeito construtivo, sem nos deixar envolver pela raiva, egoísmo e julgamento.

Acaba sendo normal o ser humano evitar o conflito, pois interpreta apenas o lado negativo dele, chegando até a fazer de conta que ele não existe, se esquecendo, inclusive, que muitas relações chegam a se desfazer exatamente por não terem enfrentado essa adversidade, necessária muitas vezes. O sucesso de um relacionamento pessoal ou profissional não depende da ausência de confrontos, mas da capacidade e competência comunicativa e interpessoal de solucionar a situação.

O conflito que as empresas valorizam

Esse elemento tem chamado a atenção nas companhias. Ele está diretamente ligado à diversidade, que é considerada importante em todas as empresas, afinal, com a discordância de opiniões e ideias, se constrói organizações mais resistentes que compreendem mais a realidade mutável do mercado. No contexto administrativo e empresarial, o conflito, hoje, é enxergado como algo benéfico e necessário, ou seja, uma oportunidade.

O líder precisa entender que não dá para fechar os olhos para as divergências, mas deve saber geri-la de forma a torná-la eficaz e produtiva para o grupo. Uma liderança eficiente facilita uma comunicação adequada, e também permite os integrantes ouvirem outros pontos de vista com a flexibilidade de mudarem de ideia, se necessário.

A essência de tudo

O desafio é conseguir manter o equilíbrio, a “paz”, mesmo na diversidade, e viver o conflito não como ameaça, mas como momento de evolução, enriquecimento e abertura ao novo. Ele é um problema a ser solucionado e, não, uma guerra a ser disputada.
As relações interpessoais pedem cada vez mais a capacidade do ser humano de saber aceitar e gerir tudo aquilo que é diferente de nós: sejam pessoas, culturas, valores, opiniões e objetivos.


Eduardo Shinyashiki é palestrante, consultor organizacional, escritor e especialista em desenvolvimento das Competências de Liderança e Preparação de Equipes. Presidente da Sociedade Cre Ser Treinamentos, colabora periodicamente com artigos para revistas e jornais. Autor dos livros: Viva como Você Quer Viver, A Vida é Um Milagre e Transforme seus Sonhos em Vida - Editora Gente. Para mais informações, acesse www.edushin.com.br.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

O papel do professor na era da educação digital

Por Alessandro Fonseca, gerente territorial sênior de Digital Publishing Suite para a América Latina da Adobe Systems

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Houve um tempo em que os professores pediam para seus alunos desligarem seus telefones celulares e, recentemente, tablets em sala de aula, porém os tempos mudaram. Assim como no mundo corporativo, a moda BYOD (sigla em inglês que significa traga o seu próprio dispositivo) invadiu as salas de aula com uma avalanche de possibilidades que, se bem exploradas, têm tudo para levar a educação a um novo patamar.

Cada vez mais as tradicionais editoras de livros didáticos têm explorado as possibilidades das telas multitoque e a conectividade desses dispositivos para repensar a maneira de criar e distribuir seus livros, que contam uma história que envolve todos os sentidos dos alunos e renova o prazer de aprender.

Para os estudantes que praticamente nasceram com esses dispositivos nas mãos, trazê-lo para o dia a dia acadêmico é um processo natural e intuitivo, porém os professores têm um enorme desafio pela frente que passa, sobretudo, pela revisão do seu papel dentro e fora da sala de aula.

Tradicionalmente o professor representava a fonte de sabedoria e conhecimento, compartilhado com os alunos em aulas predominantemente expositivas às quais os estudantes se limitavam a assistir enquanto tomavam notas ou copiavam do quadro negro. As interações se limitavam à perguntas e escassas atividades pedagógicas.

Hoje convivemos com crianças e adolescentes hiperconectados, com acesso a um mundo de informação na ponta dos dedos 24 horas por dia, sete dias por semana, prontos para trazer outra perspectiva à sala de aula, colocando em xeque aquele papel tradicional do professor.

Como toda grande mudança na história da humanidade, vivemos um enorme desafio, mas também uma oportunidade que tem as mesmas proporções. É preciso repensar o papel do professor, que por mais que resista a encarar essa realidade, deixou de ser o guardião sagrado do conhecimento, apesar de sempre ter um papel crucial na educação formal de crianças e adolescentes.

Cada estudante munido de seus dispositivos conectados à rede pode, e deve, se transformar numa fonte que adiciona um pequeno tijolo ao mosaico de informações que se explora dentro e fora da sala de aula em colaboração com os demais alunos. Converter o livro didático em um organismo vivo que evolui em micro comunidades tão pequenas como uma sala de aula ou tão grandes quanto o conjunto de alunos do sexto ano do ensino médio de todo o País.

É difícil imaginar a beleza dos livros e conjuntos de objetos resultante dessa enorme teia de interações, porém a maior recompensa certamente será o conhecimento produzido e internalizado no processo.


quinta-feira, 18 de julho de 2013

Fim dos lixões é importante no combate ao efeito estufa

      Ariovaldo Caodaglio*
Em meio à onda de manifestações, passou despercebida da imprensa e da opinião pública a recente audiência no Senado na qual foi lançado o projeto Opções de Mitigação de Gases de Efeito Estufa (GEE) em Setores Chave do Brasil. Com a participação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o programa será executado em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, com recursos do Fundo Mundial para o Meio Ambiente.
Trata-se de iniciativa importante, pois reforça a colaboração entre o PNUMA e o governo brasileiro na atuação global pela redução daqueles gases. Nos organismos multilaterais, é bastante reconhecida a liderança do Brasil nessa área. Por isso, o projeto é considerado uma contribuição ao mundo. Afinal, “quando se fala em mitigar as mudanças climáticas, os benefícios transcendem as fronteiras”, observa a representante do PNUMA no País, Denise Hamú.
O projeto foi dividido em três etapas, a serem executadas em três anos. A primeira será dedicada ao estudo de setores específicos da economia. Depois, será realizada análise coordenada e, finalmente, abordada a capacitação de instituições estaduais, federais e da sociedade civil para enfrentar os possíveis cenários, com um olhar especial para a Copa do Mundo de 2014.
         Interessante, também, observar avaliação do professor Roberto Schaeffer, do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe), um dos pesquisadores do projeto. Segundo ele, trata-se do estudo mais completo feito no Brasil sobre o tema. Trabalhos semelhantes focaram os setores de modo individual, mas agora haverá um modelo integrado, abrangendo a produção de energia, transporte, construção, agricultura e outras áreas, com projeções até 2050.
Não há dúvida de estamos diante de algo significativo para o avanço do combate aos gases do efeito estufa. Contudo, para o pleno êxito dessa iniciativa, será necessário considerar, também, a Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), em especial no que diz respeito à erradicação dos lixões até 2014, substituindo-os por estrutura mais adequada à destinação final de tudo o que é recolhido dos descartes das empresas e famílias brasileiras.
Como se sabe, os lixões a céu aberto são um dos maiores emissores do gás metano, um dos grandes causadores do efeito estufa. Assim, seria interessante um diálogo entre o novo projeto lançado com a chancela expressiva do PNUMA e as áreas de meio ambiente e responsáveis pela gestão do lixo das prefeituras, pelo menos das maiores cidades brasileiras, pois está atrasado o Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos, previsto na Política Nacional (Lei nº 12.305). Muitos municípios ainda não apresentaram seus projetos, comprometendo o cronograma de erradicação dos lixões até 2014 e, portanto, mantendo-se como emissores de metano.
*Ariovaldo Caodaglio, cientista social, biólogo, estatístico e pós-graduado em meio ambiente, é presidente do SELUR (Sindicato das Empresas de Limpeza Urbana no Estado de São Paulo).

quarta-feira, 17 de julho de 2013

A saúde na emergência


Pollyana Gama
Vereadora, Educadora e mestranda
em Desenvolvimento Humano

As vozes que ecoaram - sobretudo durante o mês de junho em nosso país - e ainda ecoam,  traduzem a situação de precariedade e de maltrato crônico às políticas públicas, dentre as quais, indubitavelmente, a saúde é a principal vítima. As frequentes filas para se agendar uma consulta e o enorme tempo de espera para a realização de exames, internações, cirurgias, além da falta de leitos hospitalares, medicamentos, compõem o estado de emergência desse setor - resultante do desperdício de recursos públicos, de má gestão do sistema e, infelizmente, da epidemia de corrupção que cruelmente permite o continuísmo dessa situação, há muito tempo conhecida - inibindo seu “reestabelecimento”.

No afã de acalmar a população, o governo saiu em busca de novas agendas. Diante dos graves problemas da saúde pública, anunciou-se a vinda de médicos cubanos para suprir a falta desses profissionais no país, o que provocou imediata reação da classe médica brasileira. O Planalto anunciou o programa “Mais Médico”, desistindo, a princípio, dos médicos cubanos. Com este programa o governo anunciou a decisão de estender o curso de medicina por mais dois anos. Os alunos que ingressarem no curso de medicina a partir de 2015, além dos seis anos regulares, terão que trabalhar por dois anos no SUS, quando então receberão o diploma de médico. Mais uma polêmica foi criada com esta medida governamental, pois há contestação quanto a sua legalidade, bem como dúvidas foram levantadas quanto ao resultado esperado pelo governo.

Sabe-se da necessidade de informações precisas para que um médico, com o conhecimento que dispõe, prescreva uma receita ao paciente de modo a possibilitar-lhe a cura.  No caso do Sistema Único de Saúde brasileiro, para que ele saia desse quadro “emergencial”, informação é o que não falta. O governo possui informações que são subutilizadas. O próprio Ministério da Saúde divulgou pesquisa feita pelo IPEA em 2011, mostrando que 58,1% da população apontaram a falta de médicos como o principal problema do SUS. Dois anos se passaram e somente agora, por causa das manifestações, são apresentadas propostas desconexas e paliativas para tentar resolver este grave problema.

O Brasil possui apenas 1,8 médicos por mil habitantes, enquanto que a Argentina possui 3.2, Portugal e Espanha 4,0 por mil habitantes. No Brasil a distribuição de médicos por região é desigual: 22 estados da União estão abaixo da média nacional. Destes, somente quatro estão acima da baixa média nacional: Espírito Santo (1,97); Rio Grande do Sul (2,23); São Paulo (2,49) e Rio de Janeiro (3,44), além do Distrito Federal (3,46). Ainda, segundo pesquisa do IPEA divulgada no início desse mês, entre 48 carreiras universitárias, a medicina ocupa o primeiro lugar no ranking dos melhores salários, explicando um dos porquês da competitividade acirrada para ingressar na profissão.

Outro dado interessante é que em 2011, 18.722 médicos entraram no primeiro emprego e 14.634 profissionais estavam saindo da faculdade, ou seja, uma proporção de 1.44 vagas para cada egresso de medicina. Em 1998, 5.451 profissionais estavam entrando no primeiro emprego e 7.705 estavam sendo formados. Uma proporção de 0,71 profissionais por vaga no mercado. Nos últimos 10 anos, foram criadas 147 mil vagas de emprego e 93.156 médicos se formaram. Essa diferença gerou um déficit de 54 mil postos de trabalho nesse período.


Se o que não falta é informação, o que falta então? Falta Educação. Leia-se Educação para a  formação e qualificação de profissionais em áreas estratégicas e até mesmo políticos que tenham o planejamento como meio de organização, desenvolvimento e atendimento das demandas sociais. Enquanto persistir esse sintoma, persistirão problemas primários agravando-se ao longo do tempo os conflitos e a desconfiança nas instituições humanas. O povo deu mostras de que não vai mais tolerar esta situação e, certamente, a voz das ruas serão também no ano que vem a voz das urnas.